30 maio 2017

Evil Ryu e Violent Ken são racistas?


Esses dias no Facebook surgiu um vídeo (e também um artigo) afirmando que Evil Ryu e Violent Ken seriam racistas, por serem "negros" e malvados. Eu irei falar sobre isso e sei que a minha posição não vai agradar algumas pessoas.

Primeiro quero deixar claro uma coisa, já que tem gente que te ignora e afirma que "você não tem lugar de fala" se você não tiver certas características. Eu sou afrodescendente e já sofri racismo. Minha pele é morena, sou mestiça. Eu me vejo assim porque reconheço as minhas origens e estou um tanto farta de ser uma "parda de Schrödinger", ou seja, ser usada pela militância doida como negra quando bem entende e depois ser xingada de sinhá da casa grande, quando não concordo com algum ponto de vista. Então, vamos a minha análise.

A primeira coisa que temos que notar é o conceito de luz e trevas  NÃO é associado a cor da pele. A luz, a claridade, falando de maneira BEM SIMPLIFICADA, seria algo bom, legal, bacana. As trevas, seria a escuridão completa, algo ruim, o fim de tudo. Claro que temos outros significados, ainda mais quando lemos conceitos sobre o Yin e o Yang e outros. Abaixo, vocês podem ler uma pequena explicação sobre esse conceito, tirado deste site:
Luz e Trevas:

Na religiosidade semita estava sempre presente a dualidade luz e trevas, a luz significando o bem e as trevas significando o mal. Vê-se essa dualidade na cultura dos essênios e igualmente em outras religiões orientais como, por exemplo, no zoroastrismo. O Evangelho de S. João destaca o valor que tinham os conceitos luz e trevas para conotar o bem e o mal, Deus e o demônio e a vida eterna e a morte eterna e também o Logos. Na Primeira catequese Mistagógica aos Recém-iluminados, S. Cirilo prega aos neófitos dizendo: “Entrastes primeiro no adro do batistério. Depois vos voltastes para o Ocidente e atento escutastes. Recebestes então a ordem de estender a mão, e renunciastes a satanás...” De acordo com a liturgia da época, as igrejas eram construídas com a frente para o Oriente ou nascente (onde nasce o sol, lugar de luz) o altar ficava para o lado do Ocidente, ou poente (onde o sol se põe, lugar das trevas). Os batizandos, deveriam dizer:  “Eu renuncio a ti, satanás”. Quero também falar-vos porque estais voltados para o Ocidente, pois é necessário. O Ocidente é o lugar das trevas visíveis e como aquele [satã] é trevas, tem o seu poder nas trevas. “Por essa razão, simbolicamente olhais para o Ocidente e renunciais a este príncipe tenebroso e sombrio...” (S. CIRILO DE JERUSALÉM, 1977, p. 21). Além da Obra de Cirilo, ver, Nas referências Documentais, as obras de outros Padres da Antiguidade .

A partir do momento que você associa um conceito desses, ou algum outro similar, a cor da pele de alguém (seja associar ruindade a quem é negro ou afirmar que albinos são uma maldição como ocorre em alguns lugares da África), sinto muito, mas o racista está sendo você.

No caso, quando Evil Ryu e Violent Ken "mudam de cores", seria uma metáfora de que suas almas caíram na escuridão. 

O Satsui no Hadou que é o poder de Evil Ryu, está enraizado nos instintos mais obscuros do ser humano, como o da própria sobrevivência, em um nível metafísico, corrompendo o seu usuário. Ele se manifesta em praticantes assíduos do Ansatsuken, geralmente quando sentem um ódio muito intenso, ao ponto de querer matar alguém. O contraponto deste poder é o Mu no Hadou, sendo Gouken um dos usuários e o próprio Ryu com o passar do tempo. E podemos dizer que Gouki/Akuma soube dominar esse poder, pois diferente de Ryu, ele não fica insano e, ao contrário do que muitos pensam, não é um personagem maligno.

O Psycho Power é um poder que se alimenta do ódio, do medo e de várias emoções negativas, sendo Vega/Bison o principal usuário. Podemos ter ideia do quanto que esse poder se alimenta de energias negativas em A Shadow Falls (SF V), onde, graças ao projeto das Black Moons que trouxe caos em algumas partes do mundo, Vega/Bison ficou mais forte. O contraponto deste poder é o Soul Power, usado por Rose. Outro usuário conhecido por manipular o Psycho Power é Ed, mas diferente de Vega/Bison, ele não é maligno.


Quando Ryu é consumido pela energia maligna nos jogos, há uma transformação em seu corpo, ganhando um aspecto (principalmente em SF IV, onde ele não é uma mera "pallet swap") mais demoníaco, que chega a lembrar demônios do folclore japonês. Sua pele, fica mais escura, seus olhos sofrem uma transformação (a esclerótica ficando completamente preta e a íris ficando vermelha e brilhante), seus dentes ganham presas e os cabelos ficam cor de fogo, além de algumas cicatrizes.


Ken, ao se tornar Violent Ken no game (da Capcom), ao ser consumido pelo Psycho Power ganhou presas, o cabelo ficou praticamente platinado, seus olhos ficaram numa tonalidade roxa (ou meio acinzentados), além de ter ganho presas, e a tonalidade de sua pele fica um pouco mais escura e LEVEMENTE ROXA (principalmente nos sprites do jogo).

Quando Ken sai do controle de Vega/Bison, suas características físicas voltam ao normal (demonstrando que a escuridão saiu de seu corpo), assim como ocorre com Ryu. E no caso de Ryu temos algo interessante, que é ignorado por muitos. Dependendo do jogo, Ryu não tem a pele branca e sim MORENA. Ryu a partir de algumas ilustrações da série SF II, teve a sua pele escurecida, ao ponto de em SF III ele ser praticamente moreno, lembrando um pouco alguns japoneses que vivem em Okinawa e no restante do arquipélago de Ryukyu. Se formos colocar numa ordem cronológica do game, Ryu em SF 1 e Zero possui uma pele clara, que com o passar do tempo, foi escurecendo. Sim, Ryu está longe de ser o branco que alguns defendem.

Ryu é branco, sei...

Na série SF, ainda temos outros personagens que durante algum momento foram possuídos por uma energia maligna mas que tiveram uma transformação diferente ou nem isso, como por exemplo:


  • Hokuto: onde as única mudanças vistas na personagem ao receber o Seal of Blood (血の封印 Chi no Fūin) são os seus olhos que ficam vermelhos e seu traje que ganha cores escuras;



  • Kairi: irmão de Hokuto que quando desperta o seu poder demoníaco fica com trajes claros, cabelo branco e olhos vermelhos;



  • Oni: quando Gouki/Akuma entra nesta forma ele fica com os olhos laranjas, cabelo branco e a sua pele fica num tom violeta, além de suas feições ficarem bem próximas as de diversos demônios do folclore japonês;


  • Cammy e as Shadaloo Dolls: quando estava sob controle de Bison, a única mudança vista em Cammy seria o seu olhar e seu uniforme, o mesmo ocorre com Juni. Nas Shadaloo Dolls, a mudança mais significativa, foi em A Shadow Falls, quando houve a potencialização do Psycho Power, com todas elas ganhando uma aura roxa e um olhar mais raivoso. Ao se livrarem do controle de Vega/Bison, não há mudanças físicas em seus corpos;

Cammy como Killer Bee, sob o controle de Vega/Bison

Cammy livre, na Delta Red

Juni, livre do controle de Vega/Bison junto de Cammy

As Dolls, incluindo Juni
Jianyu, Xiayu, Juli e Santamu, com o upgrade do Psycho Power
Decapre, Aprile e Santamu fora do controle de Vega/Bison

  • Abel: ao trabalhar infiltrado na base, Abel terminou sendo afetado pela potencialização do Psycho Power de Vega/Bison, ficando "insano". Assim como nas Shadaloo Dolls, a única mudança que teve foi a aura maligna em seu corpo.

Abel em A Shadow Falls, infiltrado na Shadaloo
Abel possuído pelo Psycho Power

Além disso tudo, a série ainda possui diversos personagens que são negros, pardos e não brancos, que não são vilões, como por exemplo: Dee Jay, Elena, Duddley, Dhalsim, Sean, Laura, Rashid, Pullum e outros, incluindo aqueles que não jogáveis, como o Azam.

E ainda temos os casos curiosos de Birdie que em Street Fighter 1 era branco e ficou negro depois, sendo que a Capcom afirmou que isso aconteceu pelo fato de Birdie estar doente naquela época (?!) e Matthew McCoy da Delta Red (o grupo da Cammy), que em SF II era branco, mas que virou negro em SF V, sem nenhum motivo aparente.

Birdie, branco, em SF 1

Birdie atualmente, em SF V


Matthew, branco, junto com os seus companheiros de equipe

Matthew atualmente
O que quero dizer com isso tudo? Que muitas vezes a maldade está nos olhos de quem vê. Não nego que SF é um jogo cheio de esteriótipos (o atleta "comunista" que toma bomba, o japonês que segue o caminho de Musashi, a chinesa que luta kung fu, o americano que curte artes marciais, o americano militar patriota, etc...), e nesse caso em específico, o esteriótipo que vejo é o justamente de luz e trevas e não do racista branco salvador e bonzinho e negro malvado que te leva a perdição.

Eu termino vendo é justamente uma deturpação do conceito, induzindo a um olhar RACISTA! E infelizmente esse tipo de distorção está presente hoje na militância, é só olhar os casos onde afirmam apropriação cultural por alguém não negro usar um turbante (que nem de origem da cultura negra africana é), em vez de combater o verdadeiro mal (que seria a pessoa ser racista com um negro por usar o turbante e achar lindo qualquer pessoa que não é negra usar).

Enquanto tiver gente que, em vez de pesquisar e buscar entender o conceito que está por trás disso, ficar apenas apontando o dedo porque maldou alguma coisa e criar teorias em cima disso (mesmo tendo algum fundo de verdade no meio do raciocínio distorcido), só enfraquece e transforma em chacota a luta pelo qual acredita.

4 comentários:

Kiske - Otoko disse...

Excelente colocações ^^

Disse TUDO :D

Ad disse...

Não. Ela errou numa coisa. O Rashid ser vítima de "racismo", o que levaria a ele ser vítima de "islamofobia", outra mentira deslavada! A história provou que os muçulmanos são o povo mais racista que já existiu, mais até que os nazistas! E não sou eu quem disse isso! Bill Warner, Nathan Rufino, José Atento, Brigite Gabriel podem atestar isso!

Bia Chun-li disse...

O fato de um povo ser (ou supostamente ser, já que não irei entrar no mérito da discussão) racista, não o isenta de sofrer algum tipo de preconceito, inclusive racismo.

E a única colocação que fiz sobre Rashid no artigo inteiro foi unicamente essa: "Além disso tudo, a série ainda possui diversos personagens que são negros, pardos e não brancos, que não são vilões, como por exemplo: Dee Jay, Elena, Duddley, Dhalsim, Sean, Laura, Rashid, Pullum e outros, incluindo aqueles que não jogáveis, como o Azam." Ou seja, citando que Rashid não é um personagem branco (caucasiano) e não entrando em detalhes sobre se ele tem alguma conotação preconceituosa.

Coisa que, já que citou a dita islamofobia (que também não irei me aprofundar sobre essa questão), a Capcom DESDE O PRINCÍPIO DE SF II corre de polêmicas religiosas, visto o que ocorreu com o personagem Balrog/Vega (que a princípio teria ligação com a Igreja Católica), Dhalsim (que na verdade seria o deus Ganesha que meteria a porrada em todo mundo) e a retirada da referência religiosa acidental (preces aparentemente islâmicas) no tema do cenário Temple Hideout (O Templo Ramayana) em Street Fighter V.

Bier disse...

Sabe, eu ia escrever um artigo justamente sobre este mesmo vídeo que deu origem a este post.
Mas tu matou a pau, Chun-Bia!
É muita gente vendo maldade onde não tem.
(É muita gente sem ter o que fazer também. Opa, rimou!)

Sobre as polêmicas religiosas, a CAPCOM deu uma leve cagadinha em questões culturais... não só nas religiosas. Como, por exemplo, um dos rapazes lá do Aeroporto (Guile Stage), que está com o uniforme de Piloto aberto, mostrando uma camiseta branca e azul (que é da marinha americana, não da força aérea).

É claro que algumas paradinhas religiosas não iam ficar isentas das pérolas do maior jogo de luta do mundo, né?

Um abração! E continue o bom trabalho!

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